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Parte 1 — O Diagnóstico: a janela que ninguém notou
Editorial

Parte 1 — O Diagnóstico: a janela que ninguém notou

02 de maio de 2026·Por Felipe Makarios

O Tigre virou destino nacional — torcedor adotivo de Recife a Brasília, vice paulista, briga pela Série A. Mas, enquanto Novo Horizonte vira referência fora, a sala da diretoria continua interiorana. Esta é a Parte 1 da série editorial, com o comparativo factual entre Novorizontino e Mirassol — clube de mesma escala que abriu a porta cinco anos antes.

Esta é a Parte 1 da série editorial "Novorizontino, o time que cresceu e não percebeu". Se você ainda não leu a abertura, recomendo começar por aqui. A matéria de hoje estabelece o diagnóstico. As próximas três aprofundam, comparam e propõem.

A cena se repete há dois anos.

Você está numa fila de mercado em outra cidade — Belém, Salvador, Ribeirão, qualquer lugar fora do Vale do Tietê. Um cara nota seu boné. "Pô, Novorizontino, mano! Tô gostando bastante. Virei meio fã do Tigre". Você sorri. Tira foto. Manda no grupo da família.

Recebe áudio do primo de Brasília perguntando onde compra a camisa.

Vê torcedor de Salvador comentando vídeo no Instagram oficial.

Liga a TV no domingo e o Tigre tá no SporTV nacional, depois do Flamengo.

O time chegou. O Tigre virou marca.

Mas eu te pergunto, com a franqueza que essa coluna deve à torcida:

E o resto do clube? Chegou junto?

O CASO QUE INCOMODA

Antes de olhar pra dentro, vamos olhar pra fora. Existe um clube no interior paulista — mesma escala da gente, mesmas origens, mesma cidade pequena — que serve de espelho. Mirassol.

Mirassol tem 63 mil habitantes pelo último Censo. Novo Horizonte tem 41 mil. Estamos no mesmo recorte: cidade pequena do interior, mesma região, mesma cultura. Em 2020 o Mirassol estava na Série D. Em 2025 fechou em 4º lugar do Brasileirão Série A com vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2026.

Cinco anos. Da quarta divisão ao continente.

E não foi por acaso. Foi por gestão.

PAINEL COMPARATIVO — INTERIOR PAULISTA 2025 MIRASSOL × NOVORIZONTINO MIRASSOL FC GRÊMIO NOVORIZONTINO POSIÇÃO ATUAL Série A · 4º lugar 2025 Série B · briga pelo G4 LIBERTADORES 2026 Classificado direto ORÇAMENTO ANUAL ~R$ 36 milhões Não divulgado RECEITA PROJETADA 2025 ~R$ 120 milhões Não divulgado CT — INVESTIMENTO R$ 15mi (CT pronto 2018) Inaugurado 03/2026 POPULAÇÃO DA CIDADE 63 mil habitantes 41 mil habitantes TRAJETÓRIA RECENTE D→C→B→A em 5 anos Vice paulista · 5º Série B (2x)

Fontes: CNN Brasil · Seu Dinheiro · Jornal de Brasília

O QUE O MIRASSOL ENTENDEU CINCO ANOS ANTES DA GENTE

Quem comanda o futebol no Mirassol é o Juninho Antunes — executivo silencioso, perfil empresarial, que repete três princípios em qualquer entrevista pública: controle de custos, transparência, autonomia financeira. Não inventa torcedor que não existe. Não promete o que não pode pagar. Não contrata por afinidade.

O CT do Mirassol custou R$ 15 milhões. E foi pago integralmente com a fatia que o clube recebeu da venda do Luiz Araújo do São Paulo para o Lille em 2018. Eles tinham 30% dos direitos econômicos. Ficaram com cerca de R$ 8 milhões. Aí veio a decisão que define um clube: fazer o quê com aquilo?

O Mirassol não pagou folha. Não comprou jogador caro. Construiu CT. Transformou receita pontual em ativo permanente.

Hoje o CT deles tem câmara de flutuação — equipamento de recuperação que só o Flamengo tinha na América Latina. Tem academia, alojamentos, refeitório, departamentos médico e fisiológico padrão clube de Série A. A operação cresceu sem que o clube se endividasse.

E quando o Mozart deixou o Mirassol em 2024 pra ir pro Coritiba, sabe o que aconteceu? Anunciaram Eduardo Barroca pouco depois. Sem desespero. Sem vácuo. Sem improviso. Plano B engatilhado.

É gestão. Que não tem nada de misterioso, mas exige cultura.

A JANELA HISTÓRICA DO TIGRE

Agora olha pra nós com calma.

O Novorizontino chegou ao vice-campeonato paulista em 2026. Em 2023 e 2024 ficou em 5º lugar consecutivo na Série B, brigando até a última rodada pelo acesso. A SAF foi criada em dezembro de 2023, profissionalizando o que antes era associação. O CT Gino de Biasi foi inaugurado em março de 2026 — campos padrão FIFA, área molhada, departamentos especializados. Estrutura de clube grande.

O Jorjão é nosso, próprio do clube. Capacidade pra 16 mil pessoas. É estádio.

O elenco joga em SporTV. Camisa do Tigre é vista em vídeo de TikTok de Recife. Tem torcedor do Tigre em Belém. O clube virou referência nacional. Esse é um momento que clube grande paga consultoria pra ter.

É o que chamo de janela de marca: aquele instante em que o público desconhecido virou público engajado, e o engajado virou apaixonado. É quando se lança coleção limitada. É quando se faz colab com marca regional. É quando se vira pauta de podcast nacional. É quando se constrói marca pra a próxima década.

É o momento que não se repete.

A PERGUNTA QUE NINGUÉM ESTÁ FAZENDO

O Tigre tem hoje a maior janela de marca da sua história. Mas tá fazendo o quê com ela?

Pensa comigo nos cinco ativos que estão vivos agora, em abril de 2026, dentro do clube:

CINCO ATIVOS, UM SETOR PRA OPERAR TUDO O QUE TIGRE TEM HOJE — E O QUE NÃO ESTÁ MONETIZANDO TORCIDA NACIONAL Torcedor adotivo de Recife a Brasília JORJÃO PRÓPRIO 16 mil lugares naming rights inexplorado CT GINO DE BIASI Padrão Série A subutilizado fora do treino CLUBE FORMADOR CBF Categorias de base solidariedade não rastreada MARCA "INTERIOR FORTE" Capital simbólico narrativa não construída UM SETOR DE MARKETING PRA OPERAR TUDO ISSO

São cinco ativos vivos. Cinco janelas de receita aberta. E todos passam pela mesma sala — a sala onde se decide o que o clube vai fazer com isso.

Spoiler da próxima parte da série: essa sala não acompanhou o crescimento do time.

O DIAGNÓSTICO HONESTO

Eu não escrevo essa série pra atacar. Escrevo porque vejo o tamanho da obra que a família Biasi e o círculo histórico da SAF construíram nos últimos 15 anos — e justamente por enxergar o tamanho dessa obra é que dói ver que ela pode bater num teto invisível.

O teto se chama cultura interiorana de gestão. É aquela em que cargo é distribuído por cumplicidade, em que decisão importante é tomada na varanda, em que o "isso aqui sempre foi assim" pesa mais que o "isso precisa mudar".

É a cultura que faz o time crescer e a estrutura administrativa não acompanhar.

O Mirassol não é melhor que a gente porque tem mais dinheiro. Ele tem MENOS dinheiro que a gente. O Mirassol é melhor porque profissionalizou cinco anos antes. Porque trocou o "amigo do peito" pelo "profissional certo". Porque entendeu que clube de futebol em 2026 é uma empresa de entretenimento de massa, não um clube social do interior.

Essa série vai mostrar, em três capítulos seguintes:

  • Parte 2 — A sala da diretoria: a estrutura administrativa que ainda gere o Tigre como se fosse 2014, e o caso da demissão técnica que escancarou o amadorismo de gestão
  • Parte 3 — O marketing engavetado: por que a única "ativação" do clube com a torcida é distribuir ingresso grátis, e como a maior base de torcedores da história do clube virou dado que ninguém usa
  • Parte 4 — O manual da reconstrução: 12 meses, 5 fases, casos reais — o plano de virada que pode transformar o Tigre no segundo Mirassol da história, com mais elenco, mais CT, mais Jorjão e mais marca.

A JANELA ESTÁ ABERTA

O Tigre virou referência nacional. É um momento que não se repete.

Em três anos, ou a gente sobe pra Série A com estrutura administrativa pronta pra disputar com tranquilidade, ou a gente cai de novo pra Série C porque a sala da diretoria não conseguiu acompanhar o que o vestiário entregou.

O Mirassol mostrou que clube pequeno do interior pode chegar à Libertadores. Mostrou que tamanho de cidade não define teto. Mostrou que a única variável que importa é gestão.

A 017 olha pra família Biasi com gratidão pelos 15 anos. E olha pra próxima década pedindo coragem.

Coragem de profissionalizar. Coragem de delegar pra quem sabe. Coragem de olhar pro Mirassol não como inveja, mas como manual.

O time cresceu, professor. O time cresceu, presidente. O time cresceu, conselheiro.

Falta a sala da diretoria perceber.

Próxima parte: "A SALA DA DIRETORIA — Time de Série A, conselho de A3". Como a estrutura administrativa do Tigre ainda funciona com cultura de associação interiorana, por que o caso da demissão de Eduardo Baptista a três dias da estreia da Série B 2025 escancarou o problema, e o que o Mirassol fez de diferente.

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🗣️ Bate-Bola da Torcida

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